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terça-feira

A chama, que chama. (Conto)



Desde criança, coisa de infância...menino com jeito moleque que chamasse por craque, apelidado por Tom.
Menino lépido em um drible, menino de passe preciso e chute bom...menino que se fazia distinto sonhando descalço da chuteira...com estádios lotados, a gritar seu nome, em único tom!
Chama a faiscar dos olhos vívidos da criança craque, chama de esperança de futuro melhor em um país onde alegria de pobres...seja nada além de um trago barato de conhaque.
Chama parecia deixar como rastro, rápido tal qual ao raio por entre os demais quase que inertes...perpassava como linha em um suave cozer, tecidos humanos sem reação que não fosse de espanto, a costurar!
Chama que seja de estrela, chama para o sucesso...desde o berço, menino que ansiava nada além por uma bola ao transpor muros, ainda que muros fossem da escola, para sua arte mostrar.
Chegava na vila algo diferente, pessoas se encontravam e se perdiam...dizendo ser maravilha, dizendo ser chama do inferno, na terra por mãos humanas acesa para queimar!
O craque não se importava, sequer com uns tapas que levasse de uma esperançosa genitora que nada oferecia por nada ter, de um pai que por vezes da prisão lhe enviava alguma carta...arquivada, pois sequer aprendera a ler.
A chama chegou, parecia ter chegado para ficar...de um lado era brilho de menino que olhares fazia encantar. Por outro lado, era chama que tal qual a vampiro...toda vivacidade de um corpo retirava, opacidade em olhares se fazia, quando se acendia na penúria daquele esquecido lugar.
Crack, crack...fogo maldito a crepitar, parecia seu nome saber, parecia saber das particularidades de infortúnio e sobrevivência amarga em seu lar...
A chama chamou o craque, que com o crack um dia resolveu se encantar...encanto que duradouro para ser pior forma de ouro dos tolos...crack crack, lá estava o craque correndo já não mais atrás de uma bola, mas simplesmente por uma oportunidade de um anseio incontido saciar.
Tom então, perdia aos poucos sua cor, sua personalidade..via em pedras somente um futuro promissor a se consumir, via sonhos petrificados em realidade estranha se consumar.
Lugares esquecidos...propositalmente abandonados pelos excelentíssimos eleitos. Quiçá se algum engravatado procurasse por um dia sequer se interessar por vidas como a de Tom, algo sobre o craque e sobre crack, tivesse feito!
Em um país, longe demais de tudo que remeta ao que seja perfeito...o que nasce pobre sofre, parece ter nascido para ser rejeitado até que a vida errante, quase inevitável...dê para o caso, um desagradável desfecho.
A chama chamou o crack, menino ainda jovem com futuro promissor...menino que agora com a cabeça nas nuvens, com lágrimas sentia saudades de quando fazia bola rolar por terra, gramados, ou pelo salão.
Fecham-se cortinas para qualquer possibilidade de espetáculo, abre-se abismo que antes, era somente chão...
Está lá! Mais um para as estatísticas, estalos consumindo com avidez vida e sonhos, flertando com a quase iminência que se faça madeira do caixão...
A chama do crack, chamou o craque..."tá lá, mais um corpo estendido no chão"!
Piedade, se assemelha com cair de joelhos em um chão de asfalto...esperando dos céus um milagre...
Porquanto sociedade insista em cegar os olhos para cotidiana forma de desumana degradação.



4 comentários:

  1. NÃO NEGUE A ESTE TEXTO, UM MINUTO DE SUA ATENÇÃO...NÃO FINJA SENTIR POR OUTROS PIEDADE, QUANDO JAMAIS SOUBE ALGO SOBRE TER COMPAIXÃO.
    PODERIA TER SIDO DIFERENTE...MAS, É SÓ MAIS UM CASO PARA SE ESQUECER...CERTO?
    NÃO!



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    1. p.s: "olhos que persistam em fazer vistas grossas e julgar, assim tão cheios de defeitos...assim, sem um pingo de piedade que não fosse predecessora de possibilidade de se evitar um crime, um pouco de compaixão. Obrigado senhores, permanecem imaculados donos da verdade, é vosso todo o direito de julgar, a tal conduta "ilibada"...são donos de inalienável forma de razão!"

      Por: Fernando Ordani

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  2. O crack era para soar somente em seu nome, no entanto crack o jogou para escanteio e no final quem marcou o gol do futuro jogador foi outro fenômeno jogador :'(

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    1. Quem marcou o gol foi a sociedade alienada e políticos coniventes, envolvidos com toda esta problemática.
      Deveras, sinto que não passamos de boa forma de entretenimento, facilmente postas a escanteio quando se faça ensejo, pelos nosso ilustres homens de gravata.

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