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segunda-feira

Entre o ouro e a lama...(Negro, drama?)








Estalos intermitentes, delírios e dores que já não se sentem;
Mente ausente, corpo presente...corpo surrado para sorrisos amarelos em poucos dentes;
Incapaz de reação, incapaz de fuga...do mato, cruel capitão;
Armas apontam contra mim, nada fiz ou me recordo para me ver nesta condição;
Entre um estalo e outro, lembro-me enquanto há espaço para lembranças, de meus irmãos...
Em um continente não tão distante, minha infância;
Trocados me compraram, grilhões e navios cheios de maldade para cá, me trouxeram;
Prospectando ouro, para mim sempre ouro de um tolo...metal que jamais comprara minha liberdade, meu maior sonhado tesouro;
Em canaviais, engenhos...moenda;
Sem piedade, o amargor do açúcar que na mesa se serve, advindo da pele que se marca à ferro e fogo, da vil existência agora entretenimento para quem compre, repreenda;
Gira o moinho, eu aqui sozinho...sofrendo calado, na casa grande a mãe preta faz renda;
O açoite não fere o corpo, mas rasga a alma...dilacera meu orgulho;
Minha vida ou liberdade assim não deveriam ser compradas...adquiridas como se preto não tivesse alma, fosse laboral forma de humano colorido, entulho;
Neste tronco agora preso, meu pecado não me recordo...sequer, da própria razão para todo castigo, humilhante condição de meus irmãos nesta infeliz labuta;
Um dia...hei de me livrar de todos grilhões, não haverá necessidade deste "banzo", deste ranço...
Um dia, hei de me formar doutor...ter como criado quiçá este que me maltrata, filho de uma dama de vil conduta;
Um dia, mas para esta noite, o que há é este tétrico som que minha pele rasga, enquanto dor já não sinto...o velho conhecido açoite;
Dia ou noite, hei de conseguir minha liberdade, do ouro serei um pouco dono, com o açúcar...hei de adoçar amargura de minha vida...
Quem sabe, sonhar com liberdade não seja um dia realidade? Quem sabe, sonhar amarrado e humilhado, não seja considerada audácia por demais, mas verdade que venha com o raiar de um sol ou ascender deste luar...
Quem sabe, preço a pagar simplesmente pela "negra" forma de sonhar, não termine neste maldito tronco um dia!? 






3 comentários:

  1. "Não pedir para VOCÊ nascer assim, não pedi para nascer sob esta condição...ontem, seu escravo. Hoje, seu patrão."
    Negro drama? Amarelo, branco...mudam as cores, persiste a crueldade, alienação que se divirta com humana humilhação.

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  2. Sucesso e lama, eis a escolha de ficar em um problema ou sair dele. De certa forma a pessoas escolhem sempre o que é mais fácil ou " o que vier com mais facilidade sem esforços" POIS SE HOUVER LUCRO, SUCESSO E LAMA ESTÁ A FRENTE SEMPRE. Negros ou brancos independente da cor.

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    Respostas
    1. Hoje sim...com certeza.
      Naquela época, tal como chineses, norte-coreanos, dentre outros povos oprimidos pelo mundo...inclusive sob nosso nariz, eles não tinham escolha.
      Valeu pelo comentário.

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