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domingo

Perdi um dom.






Perdi um dom, com o propósito ulterior de tentar ser mais humano e mais normal;
Cedi aos estúpidos anseios, cedi aos conselhos alheios...lembrei-me de ser mais alguém, esqueci-me de ser eu mesmo;
Ser mais normal, sendo parte daquilo que mais detesto...sendo parte ignóbil de um processo meramente degenerativo e natural;
Abri mão de toda bagagem, pedi dentre a multidão...para ingresso uma passagem;
Abri mão de ser agente de voz ativa para ser a voz passiva, fiz opção por ser mero boçal casual;
Minha vida agora, jaz nas mãos do acaso...de meus próprios versos pouco me lembro, hei de preferir lembrar-me de todo descaso;
Descaso que feriu meu próprio ego, descaso alheio que me fez no ostracismo viver...ao me fazer de um ser repleto de ódio e assim, tão cego;
Perdi um dom, mas sequer sei ao certo se era dádiva ou maldição em forma de letras, que se encontravam e faziam algum sentido...algum dia, tivera;
Rejeitei os raros gestos e expressões de real afeição, fiz opção por combater como um medíocre toda a fúria que fere, advinda da fera;
Recordei-me de todo esquecimento, insisti no cinza do céu...nas cinzas da vida, no cinza tão concreto do cimento;
Esqueci-me então, que viver no abstrato desenhava meu ser como auto-retrato, esqueci-me de viver da pena e escolhi viver sentindo de mim mesmo, alguma pena;
Fera escolhida, esfera de inspiração...preterida;
De alguma forma, lembro-me somente que perdi um dom...
Quando definitivamente, escolhi escolhas que fizeram por mim e decidi me lamentar por existir com remorso por respirar, fazendo somente manutenção de, agora, tão sem graça forma de vida.




Um comentário:

  1. Eis-me aqui dentre os normais...faces iguais, agora se fazem tão similares a minha.
    Faces iguais...lamentando, olhando por uma janela contemplando o nada do que é agora, existir...lamentando por sequer ser sombra, se é que já fui algo para produzir sombras um dia.

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