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domingo

Desventuras de Ana.







Cansada de toda maquiagem que ocultava marcas do tempo e dissabores, preferiu um pacífico cobertor de plácidas e amarelas flores. Cansada de estar alheia à tudo sempre, cansada de sempre estar em decorrência de seu tratamento...sempre a ostentar aspecto de beleza distinta, mas sempre doente.
Ana preferiu deitar-se agora para dar um "off" no mundo...pois, já se fazia cansada da obrigatoriedade cruel de, ainda que em sua condição, ter de estar sempre ligada, estar sempre atarefada e não dispor de um segundo para si mesma...sequer, para lembrar-se sobre um real motivo que fosse sinônimo de vida e não sobrevivência cansada.
Lembranças de um tal Ataíde, chefe com síndrome de capitão, razão pela qual em sua doença havia recaído. 
Realidade agora é ataúde. Como o tão confortável berço que remete à toda infância, feito de madeira sob medida e tão consigo para ser chamado de eterno amigo.
Ana estava cansada, não tinha mais motivos para sorrir, cansada de ser secundária em todo plano. Cansada de ser zombada até mesmo em sua infância, por aquela estranha condição de pés no chão...seu maldito pé plano.
Desde a infância, criança vítima de zombarias cruéis...quando adolescente sonhava com seu príncipe, mas jamais vira em seus dedos, alguém que se interessasse, senão um vendedor, a colocar anéis.
Queriam que Ana fosse normal, queriam que ela não se importasse com tudo o que fosse besteira por demais, como ser sempre por outros de sua espécie, mas tão animais, como objeto usada...como se fora tudo isso, coisa banal.
Ana era simplesmente uma pessoa comum, que desejava ser normal...vítima de uma doença sorrateira que ninguém vê, sorrateira o suficiente para roubar para sempre um sorriso, para levar qualquer ilusão de viver em vida um paraíso. Doença preocupante chamada depressão, porém tão preocupante ao ponto de todos fingirem não ter nada com isso.
Fez o que fez. Ainda em seus trinta e cinco anos, se parecia mais velha pelo sofrimento aparente em seu rosto, sofrimento quase que sempre imposto...
Agora, estava onde talvez não quisesse ou quiçá, queria...não haveria mais noite, não existiria mais raios de sol que fariam nascer para à toda sorte de humilhação lhe submeter, em mais um dia.
Seria sereia, seria rainha...agora Ana é centro das atenções, falsas lágrimas ou lágrimas de sangue e remorso derramam sobre seu corpo, mas agora...Ana não se importa, pois para os demais, é apenas o que sempre quis em vida ser...indiferente, tal qual a este jovem corpo assassinado pela vida, apenas um corpo que repousa em paz, morto!




4 comentários:

  1. Tudo o que seja depressão, há de ser frívola condição...especialmente, quando for alheia a condição. Afinal, tudo o que não seja realmente UMBIGO, não será relevante para ser objeto de preocupação.

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  2. Era de se preoculpar com essa mulher, era de se preocupar com sua real condição... Ana não tinha alguém que por ela sentia compaixão, carinho. Ana tinha pessoas que por ela tinha piedade, sentimento de dó e pena menosprezo, fizeram pouco da situação dessa criatura, ela só precisava ajuda, de uma real atenção, pobre Ana sofreu preferiu o off do que viver diante a tanta humilhação e sofrimento, tudo que essa moça queria era um pouco de atenção.
    Ana descanse em paz, um minuto de silêncio em seu respeito!

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    1. Ana agora está definitivamente no offline da vida...onde haverá alguma justificativa.
      Ou, onde talvez não haja nada, que justifique o quão imbecil podem ser as pessoas, que são coniventes com um crime que faça alguém tirar sua própria vida.

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    2. O que faltava para dar continuidade ao meu cometário :)

      Ótimo conto, mais uma vez penso quem seja.....

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